quinta-feira, 22 de junho de 2017

GRUPO MAMBEMBE; GRANDES CANÇÕES E EVENTOS QUE VIRARAM HISTÓRIA


Em 1983 recebi das mãos de Cadinho Faria, o compacto “Sementes da Canção” para escrevermos algo numa revista que estávamos ainda lutando e sonhando em torná-la realidade. A canção “Rio Araguaia”, parceria de Cadinho Faria e Toninho Camargos, que com lirismo e metáforas, falava em plena época de censuras prévias, da Guerrilha do Araguaia, numa homenagem a Idalísio, jovem de apenas 18 anos e que desapareceu nessa guerrilha, mexeu comigo na época. Essa canção me fez chorar sem saber o porquê. E este pequeno compacto foi a primeira nota que escrevemos para a referida revista.
Uma das realizações mais importantes e oportunas que aconteceu em 2016 foi a publicação do livro “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” (Mundo Produções-Recanto das Letras) de Toninho Camargos. Trata-se do resgate de um dos Grupos mais importantes que surgiram na cultura mineira (e por que não, nacional!), um relato sobre o Grupo Mambembe (cujo nome veio de uma canção do Chico Buarque), que se dedicou a um trabalho da maior importância cultural neste estado, entre 1974 e 1982.
O livro resgata em suas memórias, a época dos festivais, eventos que revelaram nomes hoje importantes para a música brasileira. Formado por, entre outros, Toninho Camargos, Cadinho Faria, Titane (que ainda se chamava Ana Íris), Ligia Jacques, Rogério Leonel, Murilo Albernaz, Luiz Henrique de Faria, Miguel Queiroz, Lincoln Cheib, Aldo Fer­nandes, Alysson Lima, Antônio Martins, Cláudia Sampaio Costa, Eduardo Amaral, Edson Aquino, Hermínio de Almeida Filho, Lina Amaral, Marcílio Diniz e Pau­linho Mattar. A produção era feita por José Maria Caiafa. Figura importante também neste contexto foi o hoje, reconhecido nacionalmente, compositor Celso Adolfo e a concertista de piano Berenice Menegale.
A importância do Grupo Mambembe no cenário teatral mineiro e fora deste estado é de uma importância inquestionável, levando aos palcos trabalhos  cênico-musicais tais como: “A Revolta da Chibata”, “Conversa de Botequim-Filosofia da cerveja”, “De Xica a Xico” e “Divisor de Águas”. E levando a arte sem estrelismos, chegou a ousar levar para os palcos, Casquinha, um talentoso flautista de rua, pouco observado quando nas calçadas, tocava em troca de alguns trocados; assim como a participação em 1978 da “Semana do proibido”.
O Grupo mereceu elogios sinceros de pessoas importantes no cenário artístico, como o saudoso letrista Fernando Brant e Afonso Borges, realizador do “Sempre um papo”, um dos projetos literários mais importantes no momento para o país. O fim do Grupo Mambembe em 1982, coincidentemente ocorreu da mesma maneira que o EPC-Encontro Popular de Cultura, que em 1985 trouxe mais de dois mil fazedores de cultura deste estado, para a capital mineira: com a entrada do PCdoB-Partido Comunista do Brasil, o grande evento foi minguando até encerrar suas atividades.
Toninho Camargos é compositor e foi um dos fundadores do Grupo Mambembe. Assina com Luiz Henrique de Faria e Regina Coelho, o blog: “Noel Rosa – 100 canções para o centenário, disponibilizado na internet.
Realizado com recursos do sistema de financiamento coletivo por meio do site Catarse, acompanha o livro, um CD que reproduz o repertório do grupo gravado em sua época áurea, além da inédita “Tempo Mambembe” de Toninho Camargos e Cadinho Faria.
 “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” além de um importante resgate histórico de um dos mais importantes grupos deste país tem uma narrativa gostosa de ler, levando-nos a voltar no tempo, naquele tempo que arriscar tudo pela arte, era a melhor forma de sermos felizes. Muito ainda poderia aqui comentar, mas deixo ao leitor o prazer de ler esse importante lançamento para a história da música e do teatro brasileiro contemporâneo.
Em tempo: lembram-se da tal revista que cito no início deste comentário: é a Revista Arte Quintal, que surgiria em 1983 e que após ficar conhecida nacionalmente, fechou as portas em pleno Plano Collor. Pois é, após ler “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” me senti motivado a  escrever a história dessa revista, que em 2018 faria 35 anos de sua criação.
Contatos: vendasgrupomambem@gmail.com

Foto ilustrativa: Vânia Aroeira

terça-feira, 11 de abril de 2017

JESUS CRISTO CEGO

Este ano comemoro 30 anos da publicação de um dos livros mais importantes que escrevi. Trata-se de “Jesus Cristo Cego” (Editora Arte Quintal). A primeira versão foi escrita em 1975, sendo reescrito durante doze anos, até alcançar a versão final.
Com capa de Rique Aleixo de Brito, diagramação do autor, ilustrações de Juçara Costa e revisão de Vander Rabelo, o livro é dedicado à Ione Maria Kuya, Wagner Torres, Kátia Peifer e de maneira especial à Márcia Regina Ribeiro que “fechou os olhos”. No prefácio do poeta Leandro Lima, ele diz: “(...) Jesus Cristo Cego, a simpleza de um trabalho de profundidade aguda, faz-nos voar no leve alimentar de versos tão verdadeiros e sutis quanto o grande Richard Bach em Fernão Capelo Gaivota. O poeta, como poucos, consegue alcançar um objetivo almejado, porém, apenas pelos mestres atingido: a afirmação da realidade humana, sem ser banal, repetitivo e comum.(...)” O livro tem como abertura, uma epígrafe do poeta e escritor libanês Gibran Khalil Gibran.
“Jesus Cristo Cego” é um livro místico, de apenas 30 páginas, mas com um texto bem profundo e que foi lançado dia 13 de agosto de 1987, junto com Papoulas Caboclas Sobre Águas Virgens, do Wagner Torres, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, em Belo Horizonte.  Abaixo, o texto na íntegra:

JESUS CRISTO CEGO*

“Uma vez a cada cem anos, Jesus de Nazaré se encontra com Jesus dos Cristãos, num jardim entre as colinas do Líbano. E conversam longamente. E cada vez, Jesus de Nazaré vai-se embora, dizendo a Jesus dos Cristãos: - Meu amigo, receio que nunca, nunca cheguemos a concordar.”
(Gibran Khalil Gibran)

Nasci onde nasce o sol
no lugar claro de um poente
no alto da última montanha
e lá vivi
até o dia em que o Criador
fez-me um ser no escuro
longe da luz
sem ter claridade.

E a vida fez-me um ninho
de atos miraculosos
um orfanato de precauções.

Senti meu sangue jorrar em poças
como rios que jorram lágrimas no mar
construindo ondas que formam
maremotos em noite de lua linda.

Em cada par
eu fui um impar...
Em cada veia
eu fui artéria...
E cada amor
eu fui um sexo banal...

... e em meio a tantos latidos
mordi as carnes
e calcanhares de mim mesmo...
... e hoje tento explicar
os por quês infinitivos.

Não temo a morte
pois a morte é um escuro
e o escuro eu o conheço.

Aqui
onde estou
apesar do breu que me cerca
sinto tantas coisas à minha volta.

Sinto a brisa
sinto o sol mesmo sem vê-lo
sinto você cochichar ao vizinho
que fulano está de pijama
que beltrano se veste mal
sem fazer de si mesmo um espelho
e saber que talvez você
seja uma boa parte deles.

Você, eu
todos nós
vivemos numa total escuridão
que é não saber
encarar a realidade.

O homem foge da mesma
como o diabo da cruz
e por mais que tentemos
esconder nossas faces
enrugadas sob uma máscara
a realidade continuará existindo.

Por que não olhá-la de frente
sorrir ou chorar para ela?
Medo?
De que adianta ter medo
de uma coisa que não muda?
A realidade é uniforme
e continuará sendo
tenhamos medo ou não.

Morri numa cruz
a qual nem sei a cor
num calvário
feito pelos animais.

Vi o Centurião cuspir-me a cara
e profanar-me a carne.
Mas não liguei
ele era um ser que enxergava:
tive pena do seu gesto medíocre.

Nasci no escuro.
Vivi no escuro.
Morri no escuro...
... mas voltarei na luz
Para iluminar os homens
POBRES SERES CEGOS.

(*Copyright © 1987: Rogério Salgado da Silva)


















sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

“CRÔNICAS DAS PRISÕES E DO EXÍLIO” DE ARAKEN VAZ GALVÃO




Por Rogério Salgado

Na minha modesta opinião de leitor voraz, Araken Vaz Galvão se situa entre os dez melhores cronistas que já li, em toda a minha vivência. Digo isso depois de ler apenas um livro seu de crônicas. Trata-se de “Crônicas das prisões e do exílio” (Edições Alba). Suas crônicas, sempre recheadas da mais pura emoção, falam de coisas vivas, experiências vividas (e vívidas) e que lhe fez antes de tudo, um Ser Humano. Suas crônicas relatam lembranças, de amizades sinceras e também não sinceras (os muy amigos), num livro em que uma crônica se entrelaça a outra, numa seqüência romanceada. Suas reminiscências em nenhum momento nos apresenta mágoas ou rancores; muito pelo contrário, mostra-nos muita alegria de viver e segurança em cada narrativa, ao contar detalhes do que lhe vem à memória.
“Crônicas das prisões e do exílio” é um excelente livro de memórias e traz referências a pessoas hoje bastante conhecidas, além de pessoas do povo, desconhecidas atualmente. No livro é citado nomes tais como: Marcos Medeiros, Maria Lúcia Dahl, Darcy Ribeiro, Barbosa Lima Sobrinho, Eder Sader, Ênio Silveira, Nilo Silveira, Marco-Aurélio Garcia e Muniz Bandeira, e o fotógrafo Sebastião Salgado. A crônica que mais me emocionou foi a que faz referência ao assassinato de Soledad Barret, hoje esquecida na História.
Araken Vaz Galvão reside em Valença, Bahia e em 1956, aos 20 anos de idade, já era sargento do exército. No Governo Jango foi um dos líderes do Movimento dos Sargentos, utilizado pelos militares do golpe como pretexto para denunciar a indisciplina e a quebra de hierarquia. Com a tomada do poder em 1964, Araken desertou, foi expulso do exército como subversivo e passou a atuar na clandestinidade. Daí, para a luta armada foi um pulo, Da luta armada teve como conseqüência, as prisões. Passou a viver na clandestinidade e nela começou a conspirar para derrubar a ditadura. Preso em Porto Alegre, permaneceu quase um ano na prisão e ao sair, foi para o Uruguai. Voltou e ajudou a organizar a Guerrilha do Caparaó, sendo novamente preso, depois de uma peregrinação por diversas prisões de, fugiu e asilou-se na Embaixada do Uruguai, então no Rio de Janeiro. Araken empreendeu uma das raras fugas da Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, para onde fora transferido, atendendo a um pedido próprio, a fim de cumprir os 13 anos de prisão a que fora condenado. O ex-sargento, que sonhava ser advogado e não escritor foi o segundo a conseguir fugir por conta própria. Escoltado por um sargento como ele, para fazer exames numa Policlínica do Rio de Janeiro, o preso pediu para ir ao sanitário, aproveitou um cochilo da vigilância e ganhou as ruas e a liberdade.
Essas são algumas das aventuras reais vividas por esse personagem de suas próprias histórias e que hoje aos 80 anos, também publicou livros, entre eles: “Crônica de uma família sertaneja (2004) e “Saga de um menino do sertão “(2013) “Ensaios ou Nada” (2014). É dele a antológica frase: “A ditadura não foi derrubada, derrotou-se”.
“Crônicas das prisões e do exílio” é um livro que emociona do começo ao fim e por isso, merece ser lido por muitos, principalmente por alguns imbecis que nasceram após a ditadura e hoje pedem a sua volta, pelas esquinas da vida.
Contatos: arakenvaz@gmail.comfuncea.arakenvaz@gmail.com Para conhecer mais do trabalho do autor, acesse www.arakenvaz.blogspot.com


sábado, 4 de fevereiro de 2017

ARTIGO DA MINHA AMIGA TERESINKA PEREIRA


Recebi da escritora Teresinka Pereira, brasileira radicada nos Estados Unidos da América, uma das escritoras e ativistas mais respeitadas no mundo, o artigo abaixo, o qual democraticamente publico no meu blog. Gostaria de esclarecer aos leitores que acompanham meu blog, que em nenhum momento criei ou fiquei sabendo que criaram um Movimento Nacional com a finalidade de fazer com que os poetas sejam mais humanos e deixem seus estrelismos de lado. Numa carta publicada no jornal O CAPITAL, editado em Aracaju\SE por Ilma Fontes, apenas comentei uma opinião pessoal sobre estrelismos poéticos e se boatos cresceram e tomaram outras proporções, juro que não tive culpa. Eu tenho sim, comentado em eventos e entre amigos que acho ridículo um profissional de qualquer área se encher de estrelismos e que eu, Rogério Salgado, apesar de 42 anos de carreira poética, prefiro ser lembrado após a minha morte, bem mais como um grande Ser Humano, que deixou atitudes mais úteis para a humanidade, do que ser lembrado como um grande poeta, que a única coisa que deixou de contribuição, foram seus versos. Mas respeito à opinião de todos, concordando ou divergindo do que penso. E por falar em Movimentos, continuo afastado de todos os eventos literários possíveis (com exceção dos movimentos do livro “AI-5”, organizado por mim e do qual sou um dos autores). Abaixo o excelente artigo escrito pela amiga Teresinka Pereira.

OS POETAS ACHANDO QUE SÃO DEUSES

Por Teresinka Pereira*

Estava tranquilamente lendo o meu CAPITAL de cada mês, quando deparo com a carta (marcada) do poeta Rogério Salgado, dizendo que havia tomado parte em um movimento nacional com a finalidade de fazer com que “os poetas se tornem mais humanos e deixem seus estrelismos de lado”. Se a carta não estivesse dirigida à editora Ilma Fontes e não estivesse assinada por ele, não ia acreditar!
Então existe mesmo esse tal movimento contra los poetas “estrelas”, os que só conversam com seu próprio ego? Pois me garantem mesmo que além de existir tal calamidade, o movimento já conta com 40% de aprovação e participação de poetas “mais humanos"? Pois se existe quero participar. Só que não sei de que lado vou ficar! Tenho a tendência para ser “deus” que para ser “humana”. Acho que vou participar dos 60% do lado dos que conversam com o próprio ego ou com o ego de meu próximo poeta.
Explico porque: não está a meu alcance nenhum vizinho trabalhador que tome cerveja e olhe o futebol sem se importar com a lírica nem os versos, mesmo que saiam lá do terreiro ou do morro sambista. Para mim o mundo roda em ritmo de versos. Tenho um amigo nicaraguense, o Javier Peralta, que é trabalhador, mas é também poeta. Quando termina de cimentar um passeio ou de desentupir um esgoto, lava as mãos e senta para escrever poesia. Tenho outro amigo na Itália, o Ferrucho Brugnaro, que afirma ser operário, com muito orgulho e é poeta, com mais orgulho ainda. É um poeta proletário, líder trabalhista no Porto Marghera da Itália. Estivador e poeta! Esses versos são de sua autoria e talvez tenham que ver com seu trabalho:

Nossa carne, nosso coração
voltam a ser agora
aquele sonho guerrilheiro
de pássaros e céus
impossíveis de imaginar!

Nos tempos da Rússia Soviética eu correspondia com alguns poetas proletários, cuja profissão de poeta era acumulada à de operário. E há outras de que a poesia está muito intimamente relacionada com o “ego” dos trabalhadores. A revista de poesia estado-unidense BLUE COLLAR REVIEW (REVISTA DE COLARINHO BRANCO) está dedicada ao trabalho, aos trabalhadores e só publica poesia de tema laboral. Seu editor, Al Markowitz, é poeta, e são dele esses versos:

Necessito a inspiração
a grandes jatos de minha poesia
dando doce liberdade
à cada paixão guardada
por um tempo.

Uma vez a “Revista de Colarinho Azul” publicou (em inglês) este poema que escrevi sobre o poeta e o trabalho do poeta:

TRABALHO DE POETA

Estou em uma selva de nervos.
Dizem que o stress vem do trabalho excessivo,
vem do dormir a manhã inteira
e de levantar-me ao meio dia, descansada e triunfante
para viver a palavra que se detém em outros lábios.

Mas não. O trabalho do poeta
embora seja como um poço sem fundo
é também como um tango bem ou mal cantado
que padece nos círculos espaciais.

Minha dor não vem do trabalho.
Ao contrário, meu trabalho vem da dor,
do verso de pedra que faz explodir o horror da alma
enquanto espero a vida começar outra vez.

Eu sou advogada do ego. Principalmente do ego dos poetas. Uma vez li esta explicação do ego em um jornal de Costa Rica (Semanário Universidad), escrita por Hermán R. Mora C, Prof. Da Universidade de Costa Rica e tomei nota para nunca mais me esquecer:

“Yo soy El espejo de los otros. E igualmente soy yo El outro de los demás. Queda El reto – para todos los que décimos si tener cara – procurar que la vida de los otros sea, gracias a nuestra  presencia ocasional cada día em esta Tierra uma justificación para hacer um mundo realmente más justo, menos sufrido, corrupto e impune.”

E no Brasil, vamos lembrar o poeta Emil de Castro que disse uma vez, em favor do poeta, em algum lugar que não me lembro, talvez em um livro:

“Não possuo verdades. Possuo ilusões. Iludo-me a todo momento. Ontem tive ilusões de político. Hoje tenho de poeta. A única coisa verdadeiramente permanente é a poesia. Tudo passa. A própria vida passa. A morte também passa.” (Emil de Castro)

Há que respeitar o ego. E por essas coisas e esses poetas é que eu creio que o mundo precisa de nossa criação, de nossa divindade necessária que é ser o poeta, para dignificar o trabalho, o futebol, a cerveja, a humanidade que “nem sabe quem é Mário de Andrade, Carlos Drummond, Mário Quintana, Ilma Fontes ou Rogério Salgado... Pois é, meu amigo, o poeta é um criador. Então não é um deus quem pode criar estes versos que cito em seguida?

“CONCEITO**

Sou o que representa\a febre, a dor\a expressão exata\a corda que desata\todos os nós acorrentados\aos conceitos do que\querem que a poesia seja.
Canto a canção ferida\daquilo que é doído.
Tenho olhos de vidros partidos\e a imensidão de compor.
Não me estabeleço\amanheço, entardeço, anoiteço\na forma mais concreta.”

É deus mesmo, o deus que só existe na nossa imaginação e no nosso ego de poeta.


**Poema autoria de Rogério Salgado.


quarta-feira, 26 de outubro de 2016

SHOW CRISTIANO LIMA E BANDA






Conheci Cristiano Lima há mais de cinco anos e acompanho todos esses anos, sua busca pelo aperfeiçoamento pela sua evolução musical e vocal. Com certeza ele nasceu para fazer o que sabe fazer de melhor na vida: compor e interpretar não só suas próprias criações, mas dar voz a composições alheias, dando-lhes vida como se fossem suas próprias criações e isso é talento, o que Cristiano Lima tem de melhor.
Seu CD de estréia, que tem como título, seu próprio nome (e precisa mais do que isso?) revela um autor e interprete de grande sensibilidade, o qual coloca sua alma naquilo que interpreta.
Dia 28 de setembro último, pude apreciar seu primeiro show 100% profissional, com todos os músicos possíveis que um artista de seu nível pudesse ter a seu lado, para se apresentar a um público que o acompanha e o admira. Totalmente solto, a vontade, Cristiano Lima estava longe daquele jovem que conheci tocando num Centro Cultural com tantas limitações e por isso, na época um tanto quanto inseguro. Dessa vez, como nas últimas vezes que tem ele se apresentado nestes últimos anos, estava totalmente seguro de si, confiante no seu talento, por isso nos apresentou um show leve e agradável, totalmente impecável.
Com direção musical de Daniel Viana e Cristiano Lima, Cristiano se apresentou acompanhado dos músicos Daniel Viana no piano, Natan Augusto na guitarra,
 Isaías Silva no baixo e Henrique Dener na bateria, com participações especiais de Felipe Assunção na flauta e Saskia no vocal; interpretando canções de seu CD e algumas inéditas, dos autores Alex Duarte, Júnior Almeida, Edison Elói, além de parcerias suas com Bilá Bernardes, e Rodrigo Starling e uma inédita com Virgilene Araújo. O show foi aberto por “Felicidade” de Alex Duarte; seguido de A história de um pequeno amor”, inédita de Edison Elói, De A a Zeus”, parceria com Rodrigo starling; Voz velada”, outra de Alex Duarte; Tecituras”, parceria com Bilá Bernardes, que com novo arranjo tornou-se um belo bolero;  Quem sabe”, também de Alex Duarte; “Os sinais”, inédita de Junior Almeida; O presente”, de Junior Almeida, que teve a excelente participação de Felipe Assunção na flauta e  da cantora Saskia, que deu uma nova vida a essa canção, com sua bela presença de palco;  A fome e a vontade de comer”, mais uma de Alex Duarte; Algodão doce”, parceria com  Edison Elói; as inéditas “Fique a vontade”, um excelente blues em parceria com Virgilene Araujo e “Verde”  de Junior Almeida, numa intimidade com o público, tendo voz e teclado de Daniel Viana.
Vencedor da primeira etapa do “Circuito de Bar” realizado pela AMAI, no Noir Cinebar, na Savassi, em Belo Horizonte, com votação expressiva pelo público presente, Cristiano Lima hoje, profissionalmente podemos dizer que tornou-se com a lapidação de suas experiências profissionais com o público, um artista seguro de si, desses que sabem dialogar com a platéia, sem cair na pieguice, misturando uma postura agradável de presença de palco, com interpretação musical. Se no aprendizado de sua estrada como artista, teve lá suas limitações, hoje é um artista completo, totalmente profissional, desses que além de, mesmo sabendo de seu talento, mantém a humildade como pessoa, tomando posturas profissionais diante do que deseja de si e para si, com olhos para o futuro. Sabemos que o que importa é o presente, mas através de uma postura séria, como tem feito ao valorizar seu próprio trabalho artístico, com certeza a longa estrada fará de Cristiano Lima, um artista compatível com os grandes da mídia. Quem viver, com certeza, verá.
Contatos com Cristiano Lima: crlima9@gmail.com 


Crédito da foto: Felipe Assunção

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AUGUSTUS COTIDIANO E URBANDADE


Por Rogério Salgado

Quando em agosto de 2002, numa escola pública e marginalizada de Diadema – Eldorado\SP, o Grupo Divinos & Profanos, criados pelos alunos J.J. Arruda e Francisco Baker, que com o apoio da diretoria elaboraram e colocaram em prática o projeto Intervalo Poético, com a intenção de fomentar o hábito da leitura, talvez não imaginassem a importância desse trabalho para a história da literatura. Ao criarem o fanzine Augustus (pelo mês de agosto e homenageando o poeta Augusto dos Anjos). No inicio de 2003 o grupo agrega os poetas Ely Pires e Murillo Kollek, que participavam da oficina de literatura no Centro Cultural Inamar. E para mostrar a que vieram, o grupo agora lança a coletânea dos quatro poetas, intitulada: Augustus Cotidiano e Urbandade (Editora Celta).
Nota-se quatro poetas de estilos diferentes (cada um na sua), mas com uma questão em comum: usar a poesia como denúncia crítica e mostrar o mundo em que vivemos, onde o mais importante é o ter, e não o ser. E isso podemos notar neste ano de 2016, onde os interesses políticos valem mais do que os interesses do país, onde também culpamos muitas vezes defeitos governamentais, os quais cometemos no nosso dia a dia. Abaixo um pouco de cada poeta.
“Alimento,\bueiros putrefatos:\Papéis, Plásticos, Latas...\Amamento gastrite nervosa,\enquanto seborréias consomem-me...\Divido espaços deprimentes\com lençóis, louças, baratas...\Carteiros entregam-me\notícias e contas perniciosas...” (Pensamentos Arremessados Contra Tudo-J.J. Arruda). “No chão deito meu corpo.\Coberto por estrelas\durmo ao léu.\Papel jornal, forrado de letras,\revela meus sonhos.\O sino da igreja não despertou.\Ouço o silêncio,\sussurrando pelas gotas de orvalho.\Leve brisa\Choro sem ombro amigo\que me console.” (No Chão... – Francisco Baker). “Ao recanto dos santos,\vou a sua procura.\Olho para todos os lados.\Retorno ansioso\ao próximo domingo.” (A Sua Presença-Ely Pires). “Gosto do cheiro da madeira.\Ouvir os murmúrios de pessoas,\sentadas em suas mesas\saboreando as refeições do dia.\Mulheres bem vestidas.\Homens elegantes.\Crianças invisíveis.\Moças lançam sorte sobre\os rapazes.\Negociantes acertam o preço.\Há uma brisa que paira no terraço,\de onde deixo a fina chuva,\molhar meu rosto.” (Hotel Lisboa-Murillo Kollek).
Talvez os quatro autores nem tenham percebidos, mas Augustus Cotidiano e Urbandade corre o sério risco de ser um divisor de águas na moderna poesia brasileira. Mas isso, a história é quem dirá.
Contatos: Rua Caranguejo, 249 – Diadema – Eldorado\SP – Cep 09.971-100.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

SAUDADES DE KAPI

 
Em abril deste passado fez-se um ano sem a presença física em nossas vidas, do meu amigo Kapi.  Eu o conheci nos áureos tempos do Teatro Escola de Cultura Dramática, no qual tínhamos Orávio de Campos  Soares como Mestre. Era os idos da década de 70, plena ditadura militar. Kapi se enveredou pelos palcos e revolucionou com o teatro em Campos dos Goytacazes, interior do estado do Rio de Janeiro, minha terra natal. 
Nascido Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, Kapi tornou-se um dos teatrólogos, diretores teatrais e poetas mais geniais que conheci. Ousado, Kapi lançou o primeiro nu frontal, para um ator, em Campos dos Goytacazes, trabalhou com Orávio em “O arquiteto e o imperador da Assíria” de Fernando Arrabal. O trabalho poético de Kapi está no “Manual da criação de ratos”, livro de 1984 com a poeta Eloah Marconi. Nele estão poemas como “Canção amiga”, “Sangue na cidade e “Aquarela”. A peça teatral “Pontal” foi baseada em poemas de sua autoria e de outros autores, tais como Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes e Adriana Medeiros. Kapi também assinou a direção de “Romanceiro da Inconfidência” de Cecília Meireles e “Profanus”, peça revolucionária para a época, de Antonio Roberto Fernandes. Como ator, Kapi esteve em vários espetáculos, tais como “O pagador de Promessas” de Dias Gomes, com direção de Gildo Henriques, no qual interpretou um repórter. Ele inaugurou o novo Teatro Trianon, dirigindo a peça “Gota d`água” de Chico Buarque e Paulo Pontes. A última montagem assinada por Kapi foi “O Anjo Pornográfico”, de Nelson Rodrigues, encenada no Sesc em 2012.
Após 11 dias no hospital Ferreira Machado, Kapi se foi dia 2 de abril de 2015. Seu velório e enterro recebeu milhares de pessoas em sua despedida.
Irreverente e um cara a frente de seu tempo, ainda em vida Kapi deixou sua mensagem, de como queria que fosse lembrado: “Um desvairado que não coube em si”
Um exemplo de sua criatividade e genialidade está no poema “Um rio”. Escrito entre 1977 e 1978 este poema é o retrato perfeito do atual estágio do Rio Paraíba do Sul. Como bem disse Artur Gomes “Exemplo mais que perfeito de que Poeta é a Antena da Raça.” A lembrança de Kapi  sempre deixará  saudades. Abaixo o poema.
UM RIO
Era uma vez…
Um rio
Que de tão vazio,
já não era rio
e nem riachão,
tão pouco riacho.
Não era regato,
nem era arroio,
muito menos corgo.
uma vez…
um rio
que, de tanta cheia,
já não era rio
e nem ribeirão.
Era mais que Negro,
era mais que Pomba,
era mais que Pedra,
era mais que Pardo,
era mais que Preto,
bem maior ainda
que um rio grande.
Era uma vez…
um rio
que de tão antigo
era temporário,
era obsequente,
era um rio tapado
e antecedente.
Que não tinha foz,
que não tinha leito,
que não tinha margem
e nem afluente,
tão pouco nascente.
Mas que era um rio.
Não era das Velhas,
não era das Almas,
não era das Mortes.
Era um Paraíba,
era um Paraná,
era um rio parado.
Rio de enchentes,
rio de vazantes,
rio de repentes:
Um rio calado:
Sem Pirá-bandeira,
Sem Piracajara,
Sem Piracanjuba.
Em suas águas
não havia Pira
não havia íba,
não havia jica,
não havia juba.
Nem Pirá-andira,
nem Piraiapeva,
nem Pirarucu.
Era um rio assim:
Sem pirá nenhum.
Mas que era um rio.
Era uma vez….
Um rio.
Que, de tão inerte,
Já não era rio.
Não desaguou no mar,
não desaguou num lago,
nem em outro rio.
É um rio antigo,
que de tão contido
não é natureza.
Um dia foi rio,
há muito é represa.
Antônio Roberto Góis Cavalcanti (Kapi)