sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AUGUSTUS COTIDIANO E URBANDADE


Por Rogério Salgado

Quando em agosto de 2002, numa escola pública e marginalizada de Diadema – Eldorado\SP, o Grupo Divinos & Profanos, criados pelos alunos J.J. Arruda e Francisco Baker, que com o apoio da diretoria elaboraram e colocaram em prática o projeto Intervalo Poético, com a intenção de fomentar o hábito da leitura, talvez não imaginassem a importância desse trabalho para a história da literatura. Ao criarem o fanzine Augustus (pelo mês de agosto e homenageando o poeta Augusto dos Anjos). No inicio de 2003 o grupo agrega os poetas Ely Pires e Murillo Kollek, que participavam da oficina de literatura no Centro Cultural Inamar. E para mostrar a que vieram, o grupo agora lança a coletânea dos quatro poetas, intitulada: Augustus Cotidiano e Urbandade (Editora Celta).
Nota-se quatro poetas de estilos diferentes (cada um na sua), mas com uma questão em comum: usar a poesia como denúncia crítica e mostrar o mundo em que vivemos, onde o mais importante é o ter, e não o ser. E isso podemos notar neste ano de 2016, onde os interesses políticos valem mais do que os interesses do país, onde também culpamos muitas vezes defeitos governamentais, os quais cometemos no nosso dia a dia. Abaixo um pouco de cada poeta.
“Alimento,\bueiros putrefatos:\Papéis, Plásticos, Latas...\Amamento gastrite nervosa,\enquanto seborréias consomem-me...\Divido espaços deprimentes\com lençóis, louças, baratas...\Carteiros entregam-me\notícias e contas perniciosas...” (Pensamentos Arremessados Contra Tudo-J.J. Arruda). “No chão deito meu corpo.\Coberto por estrelas\durmo ao léu.\Papel jornal, forrado de letras,\revela meus sonhos.\O sino da igreja não despertou.\Ouço o silêncio,\sussurrando pelas gotas de orvalho.\Leve brisa\Choro sem ombro amigo\que me console.” (No Chão... – Francisco Baker). “Ao recanto dos santos,\vou a sua procura.\Olho para todos os lados.\Retorno ansioso\ao próximo domingo.” (A Sua Presença-Ely Pires). “Gosto do cheiro da madeira.\Ouvir os murmúrios de pessoas,\sentadas em suas mesas\saboreando as refeições do dia.\Mulheres bem vestidas.\Homens elegantes.\Crianças invisíveis.\Moças lançam sorte sobre\os rapazes.\Negociantes acertam o preço.\Há uma brisa que paira no terraço,\de onde deixo a fina chuva,\molhar meu rosto.” (Hotel Lisboa-Murillo Kollek).
Talvez os quatro autores nem tenham percebidos, mas Augustus Cotidiano e Urbandade corre o sério risco de ser um divisor de águas na moderna poesia brasileira. Mas isso, a história é quem dirá.
Contatos: Rua Caranguejo, 249 – Diadema – Eldorado\SP – Cep 09.971-100.

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