quinta-feira, 14 de setembro de 2017

BIOGRAFIA DE UMA REVISTA (NAQUELES TEMPOS DA ARTE QUINTAL)

No momento estou escrevendo meu próximo livro para 2018. Trata-se da história de uma revista criada por mim e outros amigos em 1983 e que, mesmo sem internet naquela época, tornou-se conhecida como referência cultural nacionalmente. Revelamos vários artistas desconhecidos, alguém famoso na capa para vender e o leitor levando a revista, leria entrevistas com esse alguém de renome e o outro alguém desconhecido. Artistas de todo o país quando vinham à capital mineira, visitavam três lugares: o Palácio das Artes, o Suplemento Literário do Minas Gerais e a Revista Arte Quintal, cuja sede ficava na Rua Carijós, 150 – Sala 803. A revista fechou as portas em 1992, em pleno Plano Collor. Abaixo trechos deste livro, ainda sem revisão, para a leitura dos curiosos. (Rogério Salgado)

“Neste ano de 1982 conheci Ecivaldo John, que morava na Av. Gal. Olímpio Mourão Filho nº 122, apartamento 101 A, no Planalto, local que seria o primeiro endereço do futuro jornal que ele iria criar comigo. Conheci depois Virgínia Reis e começamos a namorar com certo entusiasmo de juventude, pois apesar de estar nos meus 28 anos, era de certa maneira, um adolescente. Eu entusiasmado por namorar uma estudante de medicina bem bonita e ela por namorar um poeta. Dizem que até hoje não envelheci, por causa do frescor da juventude que levo dentro de mim.
Juntamos meu sonho com a garra que ela tinha e a alegria e entusiasmo do Ecivaldo. Num dos nossos primeiros encontros, fomos eu, ela e Ecivaldo numa corrida de Motocross na Serra do Cipó, ver velocidade e poeira misturar-se aos nossos ideais. Decidimos então, fazer pedágios em semáforos e vendermos rifas nas imediações do bairro, para juntar dinheiro. A gente deixava de curtir nosso fim de semana, para nos dedicarmos e essa empreitada. Cada pessoa que nos ajudava nos pedágios ou comprando nossa rifa, recebiam um folheto com o texto escrito por nós três (...).
O número zero saiu dia 13 de março de 1983. Fizemos um lançamento no bar Nós Todos. Só que dessa vez, foi um sucesso, pois o local ficou lotado. Todos queriam conhecer aquele novo jornal-revista que trazia uma proposta nova, diferente.
A partir do dia seguinte, saímos vendendo de mão em mão nos bares, nas noites da capital mineira. Este nº zero vinha com uma arte na capa feita pelo Clifor Andrade, um garoto talentosíssimo de apenas 15 anos e que atualmente é um senhor dentista, com consultório no bairro Planalto. Lembro que sua mãe ficou decepcionada, pois achava que seu filho iria receber pela arte para a nossa capa. Nós não tínhamos nem para pagarmos direito a gráfica, quanto mais para pagarmos ao Clifor pela sua arte. Ou seja, ficou na colaboração.
Na capa tinha um desenho do Charles Chaplin, o homenageado desta edição.(...)
E assim seguimos com nossa vontade de não deixarmos a peteca cair. E para a edição de nº 2 Wagner sugeriu Marco Antonio Araújo, um músico instrumental mineiro, que estava sendo reconhecido nacionalmente. Virginia sugeriu Sara Amorim que era a editora do jornal Nossa Música, a qual muitos achavam que éramos concorrentes e para quebrar essa barreira, fizemos uma matéria com a Sara na nossa revista e ela fez uma matéria conosco para a sua revista, tipo uma troca de gentilezas. Meu amigo jornalista Adair José nos ofereceu uma entrevista que ele tinha feito com a artista plástica Yara Tupinambá, a qual aceitamos de bom grado e Wagner sugeriu Rubinho do Vale. Nesta edição, logo abaixo do editorial escrevemos um texto falando sobre as eleições diretas em 1985. Ali, quase sem perceber, começávamos a nos envolver politicamente. Dedicamos a edição a John Lennon e incluímos a letra de “Imagine” traduzida. Nesta época, vários artistas mineiros, incluindo nós da Arte Quintal, já nos reuníamos no Teatro Marília e na sede da Apated para discutirmos as eleições diretas. Queríamos um presidente que fosse eleito por nós, mesmo se errássemos ou acertássemos, queríamos ser os donos da história e naquele finalzinho de ditadura, ainda éramos impedidos de criarmos o futuro desse país. Queríamos o verdadeiro sentido da liberdade correndo em nossas veias.(...)
Dia 27 de agosto de 1991, apesar das estarmos passando sérias dificuldades, fizemos um show no extinto Cabaré Mineiro, para comemorar os oito anos da Arte Quintal, com a presença de músicos e poetas que doaram a bilheteria para ajudar a Editora. Foram eles Marku Ribas, Ladston do Nascimento, Cynthia Martins & Marcus Bolivar, Sheyla Araújo, João Bosco & Ilca e Zé Baliza & Bajaré. João Boamorte não compareceu por problemas de saúde, vindo a falecer logo depois. O jornal Minas Gerais publicou matéria sobre o evento.
E foi aí que o Wagner teve a idéia de dar uma última cartada: a produção de uma antologia de contos mineiros intitulada “Flor de vidro”, título de um conto inédito de Murilo Rubião, gentilmente cedido pela sua família para nos ajudar, assim como dos outros autores que abriram mão de seus direitos autorais. O livro considerado uma importante reunião de autores mineiros, desde veteranos a estreantes teve seu lançamento oficial no Projeto Minas Escreve, da Caixa Econômica Federal dia 16 de dezembro de 1991, mas poucos exemplares foram vendidos, apesar de sua enorme importância para a literatura brasileira, como um divisor de águas na editoração de livros de contos na história da literatura nacional. Foram 48 autores entre desconhecidos e consagrados, numa reunião de quatro gerações, juntando realismo fantástico, pop, erótico, impressionismo, pós-moderno, num livro que marcou uma época. Organizado pelo Wagner com uma pequena ajuda minha (...)”


quinta-feira, 22 de junho de 2017

GRUPO MAMBEMBE; GRANDES CANÇÕES E EVENTOS QUE VIRARAM HISTÓRIA


Em 1983 recebi das mãos de Cadinho Faria, o compacto “Sementes da Canção” para escrevermos algo numa revista que estávamos ainda lutando e sonhando em torná-la realidade. A canção “Rio Araguaia”, parceria de Cadinho Faria e Toninho Camargos, que com lirismo e metáforas, falava em plena época de censuras prévias, da Guerrilha do Araguaia, numa homenagem a Idalísio, jovem de apenas 18 anos e que desapareceu nessa guerrilha, mexeu comigo na época. Essa canção me fez chorar sem saber o porquê. E este pequeno compacto foi a primeira nota que escrevemos para a referida revista.
Uma das realizações mais importantes e oportunas que aconteceu em 2016 foi a publicação do livro “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” (Mundo Produções-Recanto das Letras) de Toninho Camargos. Trata-se do resgate de um dos Grupos mais importantes que surgiram na cultura mineira (e por que não, nacional!), um relato sobre o Grupo Mambembe (cujo nome veio de uma canção do Chico Buarque), que se dedicou a um trabalho da maior importância cultural neste estado, entre 1974 e 1982.
O livro resgata em suas memórias, a época dos festivais, eventos que revelaram nomes hoje importantes para a música brasileira. Formado por, entre outros, Toninho Camargos, Cadinho Faria, Titane (que ainda se chamava Ana Íris), Ligia Jacques, Rogério Leonel, Murilo Albernaz, Luiz Henrique de Faria, Miguel Queiroz, Lincoln Cheib, Aldo Fer­nandes, Alysson Lima, Antônio Martins, Cláudia Sampaio Costa, Eduardo Amaral, Edson Aquino, Hermínio de Almeida Filho, Lina Amaral, Marcílio Diniz e Pau­linho Mattar. A produção era feita por José Maria Caiafa. Figura importante também neste contexto foi o hoje, reconhecido nacionalmente, compositor Celso Adolfo e a concertista de piano Berenice Menegale.
A importância do Grupo Mambembe no cenário teatral mineiro e fora deste estado é de uma importância inquestionável, levando aos palcos trabalhos  cênico-musicais tais como: “A Revolta da Chibata”, “Conversa de Botequim-Filosofia da cerveja”, “De Xica a Xico” e “Divisor de Águas”. E levando a arte sem estrelismos, chegou a ousar levar para os palcos, Casquinha, um talentoso flautista de rua, pouco observado quando nas calçadas, tocava em troca de alguns trocados; assim como a participação em 1978 da “Semana do proibido”.
O Grupo mereceu elogios sinceros de pessoas importantes no cenário artístico, como o saudoso letrista Fernando Brant e Afonso Borges, realizador do “Sempre um papo”, um dos projetos literários mais importantes no momento para o país. O fim do Grupo Mambembe em 1982, coincidentemente ocorreu da mesma maneira que o EPC-Encontro Popular de Cultura, que em 1985 trouxe mais de dois mil fazedores de cultura deste estado, para a capital mineira: com a entrada do PCdoB-Partido Comunista do Brasil, o grande evento foi minguando até encerrar suas atividades.
Toninho Camargos é compositor e foi um dos fundadores do Grupo Mambembe. Assina com Luiz Henrique de Faria e Regina Coelho, o blog: “Noel Rosa – 100 canções para o centenário, disponibilizado na internet.
Realizado com recursos do sistema de financiamento coletivo por meio do site Catarse, acompanha o livro, um CD que reproduz o repertório do grupo gravado em sua época áurea, além da inédita “Tempo Mambembe” de Toninho Camargos e Cadinho Faria.
 “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” além de um importante resgate histórico de um dos mais importantes grupos deste país tem uma narrativa gostosa de ler, levando-nos a voltar no tempo, naquele tempo que arriscar tudo pela arte, era a melhor forma de sermos felizes. Muito ainda poderia aqui comentar, mas deixo ao leitor o prazer de ler esse importante lançamento para a história da música e do teatro brasileiro contemporâneo.
Em tempo: lembram-se da tal revista que cito no início deste comentário: é a Revista Arte Quintal, que surgiria em 1983 e que após ficar conhecida nacionalmente, fechou as portas em pleno Plano Collor. Pois é, após ler “Grupo Mambembe: Pequena história que virou canção” me senti motivado a  escrever a história dessa revista, que em 2018 faria 35 anos de sua criação.
Contatos: vendasgrupomambem@gmail.com

Foto ilustrativa: Vânia Aroeira

terça-feira, 11 de abril de 2017

JESUS CRISTO CEGO

Este ano comemoro 30 anos da publicação de um dos livros mais importantes que escrevi. Trata-se de “Jesus Cristo Cego” (Editora Arte Quintal). A primeira versão foi escrita em 1975, sendo reescrito durante doze anos, até alcançar a versão final.
Com capa de Rique Aleixo de Brito, diagramação do autor, ilustrações de Juçara Costa e revisão de Vander Rabelo, o livro é dedicado à Ione Maria Kuya, Wagner Torres, Kátia Peifer e de maneira especial à Márcia Regina Ribeiro que “fechou os olhos”. No prefácio do poeta Leandro Lima, ele diz: “(...) Jesus Cristo Cego, a simpleza de um trabalho de profundidade aguda, faz-nos voar no leve alimentar de versos tão verdadeiros e sutis quanto o grande Richard Bach em Fernão Capelo Gaivota. O poeta, como poucos, consegue alcançar um objetivo almejado, porém, apenas pelos mestres atingido: a afirmação da realidade humana, sem ser banal, repetitivo e comum.(...)” O livro tem como abertura, uma epígrafe do poeta e escritor libanês Gibran Khalil Gibran.
“Jesus Cristo Cego” é um livro místico, de apenas 30 páginas, mas com um texto bem profundo e que foi lançado dia 13 de agosto de 1987, junto com Papoulas Caboclas Sobre Águas Virgens, do Wagner Torres, na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, em Belo Horizonte.  Abaixo, o texto na íntegra:

JESUS CRISTO CEGO*

“Uma vez a cada cem anos, Jesus de Nazaré se encontra com Jesus dos Cristãos, num jardim entre as colinas do Líbano. E conversam longamente. E cada vez, Jesus de Nazaré vai-se embora, dizendo a Jesus dos Cristãos: - Meu amigo, receio que nunca, nunca cheguemos a concordar.”
(Gibran Khalil Gibran)

Nasci onde nasce o sol
no lugar claro de um poente
no alto da última montanha
e lá vivi
até o dia em que o Criador
fez-me um ser no escuro
longe da luz
sem ter claridade.

E a vida fez-me um ninho
de atos miraculosos
um orfanato de precauções.

Senti meu sangue jorrar em poças
como rios que jorram lágrimas no mar
construindo ondas que formam
maremotos em noite de lua linda.

Em cada par
eu fui um impar...
Em cada veia
eu fui artéria...
E cada amor
eu fui um sexo banal...

... e em meio a tantos latidos
mordi as carnes
e calcanhares de mim mesmo...
... e hoje tento explicar
os por quês infinitivos.

Não temo a morte
pois a morte é um escuro
e o escuro eu o conheço.

Aqui
onde estou
apesar do breu que me cerca
sinto tantas coisas à minha volta.

Sinto a brisa
sinto o sol mesmo sem vê-lo
sinto você cochichar ao vizinho
que fulano está de pijama
que beltrano se veste mal
sem fazer de si mesmo um espelho
e saber que talvez você
seja uma boa parte deles.

Você, eu
todos nós
vivemos numa total escuridão
que é não saber
encarar a realidade.

O homem foge da mesma
como o diabo da cruz
e por mais que tentemos
esconder nossas faces
enrugadas sob uma máscara
a realidade continuará existindo.

Por que não olhá-la de frente
sorrir ou chorar para ela?
Medo?
De que adianta ter medo
de uma coisa que não muda?
A realidade é uniforme
e continuará sendo
tenhamos medo ou não.

Morri numa cruz
a qual nem sei a cor
num calvário
feito pelos animais.

Vi o Centurião cuspir-me a cara
e profanar-me a carne.
Mas não liguei
ele era um ser que enxergava:
tive pena do seu gesto medíocre.

Nasci no escuro.
Vivi no escuro.
Morri no escuro...
... mas voltarei na luz
Para iluminar os homens
POBRES SERES CEGOS.

(*Copyright © 1987: Rogério Salgado da Silva)


















sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

“CRÔNICAS DAS PRISÕES E DO EXÍLIO” DE ARAKEN VAZ GALVÃO




Por Rogério Salgado

Na minha modesta opinião de leitor voraz, Araken Vaz Galvão se situa entre os dez melhores cronistas que já li, em toda a minha vivência. Digo isso depois de ler apenas um livro seu de crônicas. Trata-se de “Crônicas das prisões e do exílio” (Edições Alba). Suas crônicas, sempre recheadas da mais pura emoção, falam de coisas vivas, experiências vividas (e vívidas) e que lhe fez antes de tudo, um Ser Humano. Suas crônicas relatam lembranças, de amizades sinceras e também não sinceras (os muy amigos), num livro em que uma crônica se entrelaça a outra, numa seqüência romanceada. Suas reminiscências em nenhum momento nos apresenta mágoas ou rancores; muito pelo contrário, mostra-nos muita alegria de viver e segurança em cada narrativa, ao contar detalhes do que lhe vem à memória.
“Crônicas das prisões e do exílio” é um excelente livro de memórias e traz referências a pessoas hoje bastante conhecidas, além de pessoas do povo, desconhecidas atualmente. No livro é citado nomes tais como: Marcos Medeiros, Maria Lúcia Dahl, Darcy Ribeiro, Barbosa Lima Sobrinho, Eder Sader, Ênio Silveira, Nilo Silveira, Marco-Aurélio Garcia e Muniz Bandeira, e o fotógrafo Sebastião Salgado. A crônica que mais me emocionou foi a que faz referência ao assassinato de Soledad Barret, hoje esquecida na História.
Araken Vaz Galvão reside em Valença, Bahia e em 1956, aos 20 anos de idade, já era sargento do exército. No Governo Jango foi um dos líderes do Movimento dos Sargentos, utilizado pelos militares do golpe como pretexto para denunciar a indisciplina e a quebra de hierarquia. Com a tomada do poder em 1964, Araken desertou, foi expulso do exército como subversivo e passou a atuar na clandestinidade. Daí, para a luta armada foi um pulo, Da luta armada teve como conseqüência, as prisões. Passou a viver na clandestinidade e nela começou a conspirar para derrubar a ditadura. Preso em Porto Alegre, permaneceu quase um ano na prisão e ao sair, foi para o Uruguai. Voltou e ajudou a organizar a Guerrilha do Caparaó, sendo novamente preso, depois de uma peregrinação por diversas prisões de, fugiu e asilou-se na Embaixada do Uruguai, então no Rio de Janeiro. Araken empreendeu uma das raras fugas da Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, para onde fora transferido, atendendo a um pedido próprio, a fim de cumprir os 13 anos de prisão a que fora condenado. O ex-sargento, que sonhava ser advogado e não escritor foi o segundo a conseguir fugir por conta própria. Escoltado por um sargento como ele, para fazer exames numa Policlínica do Rio de Janeiro, o preso pediu para ir ao sanitário, aproveitou um cochilo da vigilância e ganhou as ruas e a liberdade.
Essas são algumas das aventuras reais vividas por esse personagem de suas próprias histórias e que hoje aos 80 anos, também publicou livros, entre eles: “Crônica de uma família sertaneja (2004) e “Saga de um menino do sertão “(2013) “Ensaios ou Nada” (2014). É dele a antológica frase: “A ditadura não foi derrubada, derrotou-se”.
“Crônicas das prisões e do exílio” é um livro que emociona do começo ao fim e por isso, merece ser lido por muitos, principalmente por alguns imbecis que nasceram após a ditadura e hoje pedem a sua volta, pelas esquinas da vida.
Contatos: arakenvaz@gmail.comfuncea.arakenvaz@gmail.com Para conhecer mais do trabalho do autor, acesse www.arakenvaz.blogspot.com


sábado, 4 de fevereiro de 2017

ARTIGO DA MINHA AMIGA TERESINKA PEREIRA


Recebi da escritora Teresinka Pereira, brasileira radicada nos Estados Unidos da América, uma das escritoras e ativistas mais respeitadas no mundo, o artigo abaixo, o qual democraticamente publico no meu blog. Gostaria de esclarecer aos leitores que acompanham meu blog, que em nenhum momento criei ou fiquei sabendo que criaram um Movimento Nacional com a finalidade de fazer com que os poetas sejam mais humanos e deixem seus estrelismos de lado. Numa carta publicada no jornal O CAPITAL, editado em Aracaju\SE por Ilma Fontes, apenas comentei uma opinião pessoal sobre estrelismos poéticos e se boatos cresceram e tomaram outras proporções, juro que não tive culpa. Eu tenho sim, comentado em eventos e entre amigos que acho ridículo um profissional de qualquer área se encher de estrelismos e que eu, Rogério Salgado, apesar de 42 anos de carreira poética, prefiro ser lembrado após a minha morte, bem mais como um grande Ser Humano, que deixou atitudes mais úteis para a humanidade, do que ser lembrado como um grande poeta, que a única coisa que deixou de contribuição, foram seus versos. Mas respeito à opinião de todos, concordando ou divergindo do que penso. E por falar em Movimentos, continuo afastado de todos os eventos literários possíveis (com exceção dos movimentos do livro “AI-5”, organizado por mim e do qual sou um dos autores). Abaixo o excelente artigo escrito pela amiga Teresinka Pereira.

OS POETAS ACHANDO QUE SÃO DEUSES

Por Teresinka Pereira*

Estava tranquilamente lendo o meu CAPITAL de cada mês, quando deparo com a carta (marcada) do poeta Rogério Salgado, dizendo que havia tomado parte em um movimento nacional com a finalidade de fazer com que “os poetas se tornem mais humanos e deixem seus estrelismos de lado”. Se a carta não estivesse dirigida à editora Ilma Fontes e não estivesse assinada por ele, não ia acreditar!
Então existe mesmo esse tal movimento contra los poetas “estrelas”, os que só conversam com seu próprio ego? Pois me garantem mesmo que além de existir tal calamidade, o movimento já conta com 40% de aprovação e participação de poetas “mais humanos"? Pois se existe quero participar. Só que não sei de que lado vou ficar! Tenho a tendência para ser “deus” que para ser “humana”. Acho que vou participar dos 60% do lado dos que conversam com o próprio ego ou com o ego de meu próximo poeta.
Explico porque: não está a meu alcance nenhum vizinho trabalhador que tome cerveja e olhe o futebol sem se importar com a lírica nem os versos, mesmo que saiam lá do terreiro ou do morro sambista. Para mim o mundo roda em ritmo de versos. Tenho um amigo nicaraguense, o Javier Peralta, que é trabalhador, mas é também poeta. Quando termina de cimentar um passeio ou de desentupir um esgoto, lava as mãos e senta para escrever poesia. Tenho outro amigo na Itália, o Ferrucho Brugnaro, que afirma ser operário, com muito orgulho e é poeta, com mais orgulho ainda. É um poeta proletário, líder trabalhista no Porto Marghera da Itália. Estivador e poeta! Esses versos são de sua autoria e talvez tenham que ver com seu trabalho:

Nossa carne, nosso coração
voltam a ser agora
aquele sonho guerrilheiro
de pássaros e céus
impossíveis de imaginar!

Nos tempos da Rússia Soviética eu correspondia com alguns poetas proletários, cuja profissão de poeta era acumulada à de operário. E há outras de que a poesia está muito intimamente relacionada com o “ego” dos trabalhadores. A revista de poesia estado-unidense BLUE COLLAR REVIEW (REVISTA DE COLARINHO BRANCO) está dedicada ao trabalho, aos trabalhadores e só publica poesia de tema laboral. Seu editor, Al Markowitz, é poeta, e são dele esses versos:

Necessito a inspiração
a grandes jatos de minha poesia
dando doce liberdade
à cada paixão guardada
por um tempo.

Uma vez a “Revista de Colarinho Azul” publicou (em inglês) este poema que escrevi sobre o poeta e o trabalho do poeta:

TRABALHO DE POETA

Estou em uma selva de nervos.
Dizem que o stress vem do trabalho excessivo,
vem do dormir a manhã inteira
e de levantar-me ao meio dia, descansada e triunfante
para viver a palavra que se detém em outros lábios.

Mas não. O trabalho do poeta
embora seja como um poço sem fundo
é também como um tango bem ou mal cantado
que padece nos círculos espaciais.

Minha dor não vem do trabalho.
Ao contrário, meu trabalho vem da dor,
do verso de pedra que faz explodir o horror da alma
enquanto espero a vida começar outra vez.

Eu sou advogada do ego. Principalmente do ego dos poetas. Uma vez li esta explicação do ego em um jornal de Costa Rica (Semanário Universidad), escrita por Hermán R. Mora C, Prof. Da Universidade de Costa Rica e tomei nota para nunca mais me esquecer:

“Yo soy El espejo de los otros. E igualmente soy yo El outro de los demás. Queda El reto – para todos los que décimos si tener cara – procurar que la vida de los otros sea, gracias a nuestra  presencia ocasional cada día em esta Tierra uma justificación para hacer um mundo realmente más justo, menos sufrido, corrupto e impune.”

E no Brasil, vamos lembrar o poeta Emil de Castro que disse uma vez, em favor do poeta, em algum lugar que não me lembro, talvez em um livro:

“Não possuo verdades. Possuo ilusões. Iludo-me a todo momento. Ontem tive ilusões de político. Hoje tenho de poeta. A única coisa verdadeiramente permanente é a poesia. Tudo passa. A própria vida passa. A morte também passa.” (Emil de Castro)

Há que respeitar o ego. E por essas coisas e esses poetas é que eu creio que o mundo precisa de nossa criação, de nossa divindade necessária que é ser o poeta, para dignificar o trabalho, o futebol, a cerveja, a humanidade que “nem sabe quem é Mário de Andrade, Carlos Drummond, Mário Quintana, Ilma Fontes ou Rogério Salgado... Pois é, meu amigo, o poeta é um criador. Então não é um deus quem pode criar estes versos que cito em seguida?

“CONCEITO**

Sou o que representa\a febre, a dor\a expressão exata\a corda que desata\todos os nós acorrentados\aos conceitos do que\querem que a poesia seja.
Canto a canção ferida\daquilo que é doído.
Tenho olhos de vidros partidos\e a imensidão de compor.
Não me estabeleço\amanheço, entardeço, anoiteço\na forma mais concreta.”

É deus mesmo, o deus que só existe na nossa imaginação e no nosso ego de poeta.


**Poema autoria de Rogério Salgado.